sexta-feira, 7 de maio de 2010

D. Juan de Saias

Muito tempo depois da separação ela achou, numa caixa velha e cheia de coisas que trouxera da casa da sogra, entre cadernos de escola do ex-marido, uma lista bem amassada de todas as garotas que ele havia comido, namorado ou só ficado.

Achou engraçado, patético até, mas depois pensou melhor "talvez estivesse se prevenindo para que não acontecesse o que aconteceu com ela: não se lembrava de todos!!!!"
Quando tentou fazer a sua própria lista mentalmente, sentiu-se um Don Juan de saias, como sua mãe a chamava (e ela não acreditava). Perdeu a conta e resolveu anotar também. Começou a escrever:

2 Marcelos, Giácomo (primeiro beijo), Rogério (primeiro amor, primo de Giácomo), Toninho (primeira dança lenta, segunda, terceira...), Mário, Alberto, Pedro (in memorian), 2 Franciscos (um deles teatrólogo, o outro, só louco), Konga (não era uma macaca, era um homem com o qual botei chifre no Francisco louco),
2 Marcos, Mauro (gêmeo de um dos Marcos), Márcio (o homem mais feio que já existiu), Renato (desvirginei, então tive que noivar), 2 Fernandos...

Pensava “Como consegui me formar? Como conseguia estudar desse jeito? O que a minha mãe estava fazendo que não via isso?” e sorria.

Continuou: 2 Carlos, 2 Guilhermes (in memorian de um), 3 Eduardos, Roberto (o ex-marido), um menino na danceteria idêntico ao Roberto (nem perguntei o nome), Cláudio, Licor (garçom do meu bar), um japinha no carnaval (um açougueiro, de japonês só tinha o olho e o cabelo), o amigo do primeiro Fernando, o Milionário (não posso escrever o nome), o Músico (muito menos), o Desconhecido da net (nenhum nome me ocorreu), 2 Saulos, Flor–de– Lis (esqueci o nome, mas como sempre íamos a um forró que se chamava assim...), Chulo (codinome do professor de pós-graduação mais sacana do mundo), outro japa (dessa vez cientista, cortava grandes carnes em laboratório), Elias (um mulato), Felipe, Daniel, 1 Alex e 1 Alexei, Derico, Ernani, Alfonso.

A seqüência não foi bem essa. Mais ou menos.
Em determinados momentos quis engolir o mundo e as coisas andaram meio nubladas.
Com uns foram só beijos sem namoro, outros namorou e não transou, outros transou e não namorou.
Muito poucos pensou que amou.
Dois ou três sublinhou com cor-de-rosa ou vermelho-vivo: “lembrarei até o dia da minha morte”.
Uns com carinho e saudade, outros por maus motivos.
De alguns sentia até o cheiro, o sabor do beijo, a temperatura e textura da pele, o gemido, a voz.
Não se arrepende de nenhum. Apenas podia ter feito diferente.
Alguns, pensa, ainda podia estar fazendo, não fosse o último...
O último nome ainda não havia colocado. O último.
Tentou escolheu em vão a cor mais bonita da caixa de lápis.
Não havia cor suficiente, não havia cor à altura do nome dele.
O último nome da lista escreveu com uma agulha, depois de picar o dedo e molhar a ponta em sangue.

Ele:_________________________

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Grito


Alguém, por clemência, arranca-me a pele!
Preciso de ar, ficar em carne viva!
Preciso sair, jorrar, explodir
Já não mais aguento permanecer simplesmente
Tem-me sido angustiante a espera, o daqui a pouco
Eu vejo o mar e não posso mergulhar
Eu vejo o ar e não posso voar
Eu vejo a boca e não posso beijar
Eu vejo a dor e não posso chorar
Arranquem-me os grilhões e as correntes
Que minha alma pede passagem!

Foto: Cry por hoogmoet Todos os direitos reservados

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Joio - Flá Perez



Pra ser sincera:

sei que te assanho
e tiro o sossego.

Às vezes me entrego...

Mas na maioria,
é só brincadeira
e se aperta,
eu espano.

Tenho um escudo
à prova
de perdas e danos.
não me julgue pelo vício
--ele é só fumaça--
aquilo que trago
ligeiramente à esquerda
tem mais viço
--e não passa.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Te Quero Tanto

Transparent Heart by Kelsey Love Fusion Photo

Te Quero Tanto
By Cris Linardi

Engulo o choro, sustento o riso
Sopro a tristeza e,
quase voo em mim

Teus assovios e risos
jorrando pelos orifícios
sonhos irreais.

Teu suor e torpor
passando pela onda do rádio
Tua língua úmida
Lambendo-me os olhos

E eu posso ver
vislumbrar o futuro
Você me abriu a despeito de meus medos

Estou me preparando
eu sei que serei mais mulher
Você transmuta meus passos

Tua mão dedilha minh'alma
com maestria tem conseguido decifrá-la
E eu que nunca sequer permiti

Agora me entorno e permito
suspendo meu corpo sobre o precipício
Há uma fé estranha de que você me susterá

segunda-feira, 5 de abril de 2010

infinito

[Imagem: Larissa Marques]

I

quando o amor

acontece...

o sol me extasia


II

com as asas de fogo

rumei infinito

— meu limite.


III

vedei o impossível

para que seus

olhos me alcancem


Autor: Lena Casas Novas

sábado, 3 de abril de 2010

CRÉU, CRÉU, CRÉU OU A REGRESSÃO DA LINGUAGEM






A dança do créu é aparentemente uma musiquinha inocente em que um DJ vai falando e incitando as pessoas a dançar. Ele vai aumentando a velocidade e repetindo "créu, créu, créu" em velocidade cada vez maior que os dançarinos têm que acompanhar.

Como brincadeira é algo divertido e como exercício aeróbico é extremamente interessante para queimar calorias.

Agora vamos pensar do ponto de vista linguístico: o que significa a palavra "créu"? Ela não está dicionarizada, embora já faça parte da boca do povo há um tempão. Nunca foi usada assim sozinha, mas sempre com um verbo junto: a expressão é "dar um créu" que pode significar apertar, intimidar, agarrar, forçar ou até mesmo com conotação sexual, uma gíria para a transa, a cópula.
Assim podemos dizer que o significado dessa "música" tem um sentido sexual, embora o seu autor, Sérgio Costa, o MC Créu, diga que a tenha criado a partir de uma fala de seu filho que 7 anos que dizia "créu, créu, créu". Depois dessa iluminação ele criou a letra, colocou umas mocinhas com atributos interessantes e extremamente inteligentes para criar novas e criativas coreografias que mostram o quanto contribuem para valorizar a mulher e voilá! Estava criado o hit do momento! E de repente todo mundo começa repetindo a grande e iluminada frase "créu, créu, créu" à exaustão. Até criancinhas que mal começaram a falar repetem incessantemente o refrão.

É aí que paramos para pensar: o que ocorre? Que estranho fenômeno é esse que faz com as pessoas fiquem repetindo sons que mais parecem grunhidos?Isso não é algo novo. A cada verão surge um grupelho novo com um tipo desse de som e de coreografia para aquecer a estação e duram exatamente esse tempo: uma estação. Porém, a mídia explora ao máximo esse momento e usa esses grupos e suas garotas como um creme dental, espremendo até o fim. Quando acaba, jogam fora mas arrumam outro para substituir. É o mesmo velho com cara nova. Mas isso só ocorre porque encontra eco nas pessoas que consomem essa mídia, porque se não encontrassem, não haveria tanto sucesso.

O que nos leva à nossa reflexão sobre a regressão da linguagem. Parece que há um retrocesso do pensamento e da linguagem, pois surgem letras vazias, desprovidas de sentido, mas que chamam a atenção pelo ritmo e é aí que todos repetem, mecanicamente, como se fosse apenas um som, um eco.
Onde foi parar a criatividade?
Geralda Dias